sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

A idade dos castelos – 2ª parte – Tipos de castelos e sistemas defensivos

Tipos de castelos

Por ordem cronológica e de uma forma simplificada, podemos identificar quatro tipologias de castelos durante a idade média em Portugal. São eles:

  • Castelos roqueiros
  • Castelos condais
  • Castelos românicos (com e sem influência muçulmana)
  • Castelos góticos


Castelos roqueiros – Apesar de no contexto peninsular remontar a uma época mais antiga, o castelo propriamente dito, resultante do primeiro “encastelamento” no espaço português, terá aparecido entre nós no século IX por época de Afonso III das Astúrias. Diz-nos o professor Mário Barroca que terá sido um castelo roqueiro, cujo primeiro registo data de cerca do ano 870 no actual território bracarense próximo do rio Ave. A conclusão que resulta da análise aos (poucos) vestígios dessas estruturas, mostra que seriam estruturas rudimentares, referidas na documentação da época como «monte», «mons», «castrum» ou «alpe». Correspondiam precisamente a um monte ou outra elevação em que se procedia a obras básicas de fortificação. Deslocavam-se terras para criar desníveis de cota e construiam-se muros incipientes, frequentemente em forma de talude e compostos por um aparelho de terra e pedra. Muitas vezes aproveitavam-se os afloramentos rochosos existentes no local para se incorporar na própria linha da muralha (daí o nome “roqueiro”), por forma a minorar os custos e o esforço de construção.
Fig.1 - Castelo de Penela - Construção em afloramento rochoso
Estes castelos roqueiros, cujos vestígios entre nós são muito escassos, terão sido construídos por iniciativa das populações locais. Seriam fortificações arquitectónicamente primitivas, de dimensão reduzida, com uma única entrada, sem torre de menagem, torreões, adarves, ameias e outras estruturas de defesa activa que só apareceriam muito mais tarde. Eram locais de refúgio para as populações, que neles se recolhiam com alguns bens e gado, fugindo assim das incursões inimigas.
Um exemplo de castelo roqueiro é o caso do castelo de Penela. Este castelo representa um caso curioso de coincidência entre a nomenclatura castelar e o nome da região. Passamos a explicar: Sabemos que
penella, derivado de pena ou penha, designava um castelo erguido entre e sobre os rochedos. Poderíamos, portanto, identificar essas penellas com estruturas similares aos castelos roqueiros do primeiro encastelamento do Entre-Douro-e-Minho.

Castelos condais – Depois do primeiro encastelamento do séc. IX surge o segundo encastelamento dos sécs. X e XI, que deriva da nova reforma administrativa dos territórios. Por iniciativa dos monarcas asturianos, os territórios passam a subdividir-se em condados (unidades políticas), territoria (unidades eclesiásticas) e civitates (unidades militares).

A construcção de castelos nessas
civitates visava a consolidação do território conquistado aos muçulmanos.

Por exemplo, a constituição da
civitas de Anegia. Os castelos transitam então de simples locais de refúgio para centros de poder político, cujo senhor era um conde ou “comite”.
Os condes normalmente eram nomeados régiamente entre as elites nobres para dirigir o território que lhes era destinado. Assim foi com Vímara Peres, vassalo de Afonso III das Astúrias que, em 868 foi nomeado conde de portucale e que foi o fundador de uma dinastia condal que governaria o território portucalense até 1071, altura em que o condado foi incorporado no reino da Galiza.

Os castelos condais já obedeciam a uma concepção arquitectónica mais sofisticada que os seus antecessores. O grande exemplo de castelo condal em Portugal é o castelo de Guimarães, fundado pela condessa Mumadona Dias por volta de 950 com o intuito de proteger o recém-construído mosteiro de Guimarães dos ataques normandos. Outros exemplos são o castelo de Vermoim, o de Lanhoso e os dez castelos de D. Flâmula do Entre Douro e Minho, registados documentalmente (Trancoso, Moreira de Rei, Longroiva, Numão, Muxagata, Meda, Penedono, Alcarva, Sernancelhe e Caria).
Fig. 2 - Castelo de Guimarães


Os castelos de Póvoa de Lanhoso e Trancoso:

Em relação ao castelo de Lanhoso, datado inicialmente do século X e reconstruído no XI, da sua composição inicial poucos são os vestígios que subsistem inalterados, contudo é possível detectar a nível da sua estrutura base alguns elementos que o identificam como castelo condal, como a alcáçova senhorial (elemento ilustrativo das suas funções como centro governativo) e a muralha de excelente qualidade (por oposição às muralhas dos castelos roqueiros) construída já com aparelho pré-românico. Também a nível estrutural, de realçar a introdução de diversos torreões adossados quer à porta, quer ao recinto muralhado.
Fig. 3 - Castelo de Póvoa de Lanhoso 
Em Trancoso, encontramos no seu castelo um dos principais vestígios da arquitectura militar moçárabe e simultaneamente um antecessor das torres de menagem do período românico (cuja função viria a cumprir antecipadamente). Trata-se da torre moçárabe do século X. Esta torre, datada de cerca de 960 (anterior, portanto ao aparecimento das primeiras torres de menagem) tinha uma forma tronco-piramidal com 12 metros de lado. Não era esquadriada, pois não possuía ângulos rectos e tinha uma janela em forma de arco de ferradura, característica da arte visigótica e islâmica.
Fig. 4 - Torre moçárabe do castelo de Trancoso

Castelo Românico – Em Portugal é uma construção maioritariamente de pedra, ao contrário de outras zonas da Europa em que a madeira era muito aplicada. O românico é o modelo arquitectónico dominante quer na arquitectura civil, quer religiosa e militar do século XII.
Os castelos eram agora concebidos com vista a obedecerem aos princípios de comando e de defesa passiva, não descurando, no entanto a busca pela contra-ofensiva.
Ao princípio de comando está intimamente ligada a maior inovação introduzida durante este período: a introdução das torres de menagem. Estas, situavam-se no interior do páteo cercado pela cintura muralhada do castelo e seriam construídas ou numa cota superior à do restante recinto ou , não sendo possível, com uma altura maior que o restante da estrutura. Assim, a partir da torre de menagem, organismo central do castelo, organizavam-se os dispositivos de defesa das restantes linhas. Por este mesmo princípio ficava definido que os torreões também se deveriam situar acima da cota do adarve.

Já o princípio de defesa passiva pressupunha uma grande resistência por parte da estrutura para suportar as operações de cerco, que se iam aprimorando cada vez mais. O aumento da altura e espessura das muralhas, conferindo a robustez como factor intimidatório ao inimigo era uma das táticas utilizadas frequentemente. Também se tentava isolar o castelo do inimigo construindo-o num lugar ermo e quase inacessível (como nos casos de Marvão ou Sintra) ou dentro de um curso de água ou com um fosso à volta (Almourol; fig. 4). O castelo românico tinha o modelo arquitectónico que a maioria das pessoas associa à palavra “castelo”: uma estrutura delimitada por muralha, dotada de um pátio interno e com uma torre de menagem.
Fig. 5 - Castelo de Almourol (séc. XII). Período românico
A muralha, diferente de um muro ou de um talude, por ser mais espessa e toda em pedra, era adossada com vários torreões e erguia-se duas ou três fiadas de pedra acima do adarve formando o parapeito que era coroado pelas ameias ou merlões, separados entre si por espaços regulares (as abertas) por onde os defensores arremessavam projécteis aos atacantes. A muralha delimitava um pátio geralmente de dimensões reduzidas destinado a albergar a guarnição com a sua logística, algumas instalações, oficinas e um poço ou cisterna, elemento essencial para se resistir ao assédio inimigo.
Não se sabe ao certo o ano em que surgiram entre nós as torres de menagem, no entanto, com base nas referências documentais e epigráficas, podemos balizar essa data algures na primeira metade do século XII. À semelhança dos torreões, as primeiras torres de menagem eram de planta esquadriada, com 7 a 8 metros de lado e altura de cerca de três andares. O acesso à torre fazia-se por uma porta rasgada no primeiro andar, servida por uma escada móvel de madeira que podia ser recolhida em caso de ameaça. O andar térreo não tinha porta exterior e podia ser maciço. Não sendo, servia para guardar víveres, bens ou armamento e acessava-se apenas pelo interior da torre. Os outros pisos tinham aberturas estreitas (seteiras) de ranhura vertical adaptadas ao tiro com arco. Funcionava desta forma o “donjon” (nome francófono) ou “keep” (nome anglófono) como fortaleza dentro da própria fortaleza, último reduto de defesa para os sitiados, isolado no pátio das restantes estruturas e detendo as cotas mais elevadas por forma a comandar os restantes dispositivos do castelo.

As influências muçulmanas

De uma forma geral, a qualidade dos castelos muçulmanos do Al-andaluz era bastante superior à dos castelos cristãos do norte. Os mais antigos castelos muçulmanos na península – os husun emirais e califais – eram estruturas geométricas de planta simples quadrangular ou rectangular, dotadas de torreões nos ângulos e mais numerosos ao longo da cintura muralhada. Este era um modelo de influência Síria e Bizantina.
O esplendor do período califal, nomeadamente no tempo de Abd-al-RahmanIII e Al-Hakam II deu lugar à fitna e à queda do regime califal e à implementação da conturbada época da formação dos reinos taifas na península Ibérica. Com a invasão almorávida e subsequente reunificação do Al-andaluz como estado poderoso, novas ideias trazidas por estes do norte de África foram introduzidas na península dos finais do século XI. Começam assim a triunfar as muralhas de taipa. Os almorávidas foram igualmente responsáveis pelo desenvolvimento de um novo tipo de planta de castelo, com espaços poligonais irregulares delimitados por panos de muralha rectilíneos, onde cada inflexão da muralha se apoiava em torreões de planta quadrangular. É notória a influência que estas plantas exerceram, por exemplo, no castelo de Pombal.

Fig. 6 - Panorâmica do castelo de Pombal de influência almorávida

Com a ascensão dos Almóadas, no século XII surgem as mais fecundas novidades em termos de arquitectura militar que há a assinalar no território português e que muito iria influenciar a arquitectura militar cristã dos decénios seguintes. Estes são responsáveis pela difusão, entre nós, das torres albarrãs (que eram torres avançadas em relação à linha de muralha), das torres de planta octogonal (mais económicas e mais resistentes do que as esquadriadas aos trabalhos de minagem e aos engenhos de guerra), das portas em cotovelo e das couraças (troços de muralha que se desenvolviam perpendicularmente ao muro principal da fortificação para garantir o acesso a uma fonte de água). A sua origem é também, tal como no caso dos Almorávidas, norte africana.
Fig. 7 - Castelo de Paderne; construção em taipa e torre albarrã
Fig. 8 - Torre albarrã do castelo de Silves



















Sistemas tácticos defensivos

Subdivisão: Redes de castelos castelos torres atalaias

Os castelos podiam ser encontrados isolados na paisagem ou associados a fortificações de defesa das populações. Teriam como já referimos, função de defesa de pontos estratégicos vitais e de organização do espaço militar numa escala intermédia entre o território e a área que lhe era dependente.
As torres deveriam ser os tipos de fortificação mais difundidos. Eram de baixo custo, fáceis de erguer e exigiam uma guarnição pequena. Funcionavam como defesas avançadas e constituíam sérios obstáculos a qualquer força invasora que, ou perdia tempo a conquistá-las, dando oportunidade à preparação das defesas principais, ou se arriscava a ver a sua retaguarda ameaçada pelo corte da sua linha de abastecimento pelos defensores da torre.
Além das torres de defesa, de igual modo temos de fazer referência às atalaias. Estas tinham como função principal não tanto a resistência aos ataques, mas antes avistar e avisar as fortificações que lhe estavam mais próximas da presença de inimigos. Normalmente a sua colocação no terreno era próxima de locais de passagem, vias, pontes ou vales estratégicos. Constituía assim a primeira linha de defesa e ao mesmo tempo de alerta.
Fig. 9 - Ilustração mostrando o castelo de Olivença. Do lado esquerdo da imagem temos uma atalaia
Nos territórios mais propensos a sofrer ataques muçulmanos, encontramos três tipos principais de organização defensiva. A defesa em linha, a defesa avançada e a defesa em profundidade.
A primeira aparece-nos como a mais óbvia, e está representada, por exemplo, pelo conjunto de fortalezas que se dispõem ao longo das margens de um determinado rio. Assim verificamos nas linhas do Douro e do Mondego, com os seus vários castelos distribuídos ao longo do curso dos rios. A adicionar a estes castelos, eram colocados alguns pontos de defesa secundários nos locais de fácil passagem, principalmente naqueles que proporcionavam vias fáceis de penetração. Ligando estas estruturas defensivas, uma rede de torres e atalaias servia de aviso a invasores e de sistema de comunicação entre as bases principais. A desvantagem deste sistema de defesa era que uma vez rompida a linha num ou vários pontos, o sistema tornava-se ineficaz. Daí ter-se chegado à conclusão de que seria necessário apostar nos outros sistemas, como complemento à defesa em linha.
Fig. 10 - Rede de castelos na linha do Tejo.
A defesa avançada é um sistema defensivo formado por duas linhas. Consistia numa fortificação ou rede de fortificações menores adiantadas e que serviam de “escudo” à fortificação de base que controlava a região. Temos como exemplo o castelo de Santa Maria da Feira, em Portucale, que estruturava a defesa avançada da região, composta por diversos castelos e povoações fortificadas, além dos acidentes geográficos e território acidentado que lhe pontificava nalguns acessos.
Quando possível de implantar na área geográfica, a defesa em profundidade é o sistema de protecção mais completo de entre os três que referenciámos. Consiste em 3 linhas defensivas, sendo que as fortalezas localizadas na linha intermédia, funcionam simultaneamente como linha de apoio à linha da frente e defesa avançada em relação ao território que lhe está na retaguarda (é o caso do sistema defensivo do Entre-Douro-e-Mondego, em que a linha do Vouga desempenhava este papel em relação às linhas do Mondego e do Douro). A eficácia deste sistema comprova-se com a manutenção definitiva de Coimbra e a estabilização da fronteira cristã no Mondego a partir de 1064, mesmo após as ferozes investidas almorávidas dos decénios seguintes.


Do castelo românico ao castelo gótico – As reformas Dionisinas


O que distingue uma muralha de um muro medieval, além da altura é também a espessura que poderia atingir entre 1,80m a 2m e nalguns casos até mais.
O castelo típico do século XII, de estilo arquitectónico românico, era uma estrutura militar obediente aos princípios da defesa passiva. Confiava na capacidade de resistência das suas altas e espessas muralhas para vencer o inimigo, desencorajando-o através do aumento progressivo da altura e espessura das muralhas a empreender um cerco.
O outro princípio associado aos castelos românicos peninsulares é o princípio de comando. Este consistia em organizar os dispositivos de defesa, sendo que da periferia para o centro estes iam tendo cotas cada vez mais elevadas. Esta disposição permitia que um organismo central comandasse todos os que estavam no seu exterior. É o caso dos castelos com várias linhas de defesa em que a interior comanda a exterior. Para que este princípio se verificasse, recomendava-se que os torreões se deveriam elevar acima da cota do adarve das muralhas (para controlo do caminho de ronda) e as torres de menagem teriam de ser as construções mais elevadas de todo o castelo (funcionando como central de comando).
O castelo românico, apesar da sua resistência, descurava no entanto os mecanismos eficazes de contra-ataque por parte das forças sitiadas. Este tipo de concepção revelou-se eficaz numa fase da táctica militar em que os cercos eram operações de duração mais ou menos curta, planeadas de forma deficiente, sem grandes apoios logísticos da retaguarda e em que só excepcionalmente se recorriam aos engenhos e às máquinas de cerco (como se verifica na tomada de Lisboa em 1147). Com o desenvolvimento das operações de cerco e o recurso à engenharia a generalizar-se, a arquitectura militar tendeu a evoluir e alterou-se em função dos princípios da defesa activa.
É nesta medida que D. Dinis, o Rei “Lavrador”, é considerado como o principal obreiro do melhoramento da defesa dos castelos portugueses. Deve-se à sua iniciativa, naquilo que parece ser um plano estratégico previamente conjecturado por parte do monarca, a introdução de reformas nos castelos românicos (tendencialmente a tornarem-se obsoletos). Estes iriam assim, através de obras de renovação, poder responder de forma mais eficiente às exigências da guerra de cerco. Os castelos foram assim dotados de novos mecanismos que lhes permitiram passar de um conceito de defesa passiva para um outro de defesa activa. Embora nalgumas regiões da Europa já se encontrassem estas alterações um pouco disseminada na arquitectura bélica (no reino da França, desde o tempo de Filipe Augusto se vinha a verificar essa tendência), em Portugal é sob a égide do nosso monarca D. Dinis que se regista um aumento considerável dos novos meios defesa/ataque nas fortificações medievais. Um reino a estabilizar política e económicamente e com as suas fronteiras já completamente definidas pelo Tratado de Alcanices (1297) levaram a que o Rei investisse com particular incidência na remodelação da arquitectura militar existente. As regiões de fronteira e os castelos de grande valor estratégico (ou seja, situados em regiões nevrálgicas ou junto a vias de acesso) foram os que mereceram maior atenção da parte do monarca.
As reformas instituídas por D. Dinis tiveram, além da componente arquitectónica propriamente dita, uma componente social de alteração de estatutos. O Rei inicia desta forma uma política (depois continuada pelo seu sucessor D. Afonso IV) de afastamento gradual da Nobreza das Tenências dos castelos, passando a confiar a sua guarda a Alcaides de nomeação régia. Atribui também aos Corregedores das comarcas as tarefas de verificação dos arsenais e de fiscalização e controlo do estado das fortificações. Ficava assim a coroa a tutelar e a assegurar a manutenção dos castelos, ao mesmo tempo que retirava poder aos Nobres, no que se pode considerar uma estratégia de centralização do poder Real.
Fig. 11 - Castelo de Belver na linha do Tejo
São claras as preocupações de D. Dinis e de D. Afonso IV quando incumbiram os corregedores de inspeccionar os arsenais dos castelos. Além de verificar se a fortificação possuía grande quantidade de armamento e de munições, os castelos passaram a ter oficinas de fundição para o frabrico de pontas de seta e de virotões, para que em caso de cerco nunca faltassem munições aos arqueiros e besteiros encarregues da defesa dos andaimos.
É ainda com D. Dinis que triunfa em Portugal o Ius Crenelandi, ou seja, o princípio jurídico que proclama o monopólio régio de edificar fortificações ou obras militares.
Outra medida importante da responsabilidade do Rei “Lavrador” é a instituição dos Besteiros de Conto (corporação de cariz profissional), que obrigava os concelhos a manterem, devidamente armados e treinados, um conjunto de Besteiros que podiam ser chamados a qualquer momento para integrar o exército do Rei.
Quanto às alterações arquitectónicas, convém ressalvar que, ao contrário dos castelos românicos, os castelos góticos eram obras em que para funcionarem correctamente os princípios poliorcéticos inerentes aos novos mecanismos de defesa, era fundamental um saber arquitectónico elevado por parte dos responsáveis pela sua construção. Passaram assim os castelos a ser construídos por mestres-arquitectos experientes que deixaram a sua marca nas epígrafes que chegaram até nós. São os casos do castelo de Melgaço (ainda do tempo de D. Afonso III) onde surge o primeiro balcão com matacães de que há registo em Portugal, da autoria de Mestre Fernando (1263), o de Veiros, da autoria de Mestre Pedro Abrolho (1308) ou ainda o de Estremoz da autoria de Mestre Antão (1320).
Fig. 12 - Torre do castelo de Estremoz com os seus balcões matacães
A parte da fortificação tradicionalmente mais frágil e sob a qual se tinha maior preocupação era a porta. Por isso, no período românico, o número de portas reduzia-se ao mínimo indispensável (mesmo nas urbes). Normalmente eram duas portas: a principal (a mais ampla e visível) e a porta da traição (de dimensões mais modestas, camuflada e de acesso difícil, usada frequentemente em caso de emergência). A protecção das portas era portanto um factor a ter em linha de conta. É a partir desta altura que as portas dos castelos passam a estar enquadradas por um ou dois torreões de apoio (ex: Serpa, Redondo, Alandroal, Veiros, Arraiolos e Nisa).
Na cintura muralhada assiste-se à multiplicação do número de torreões adossados, afastados entre si uma média de 8 a 15 metros. Esta medida permitia um melhoramento no tiro flanqueado. Por sua vez, o facto dos torreões terem plantas rectilíneas na sua maioria, reflecte o fraco poder ofensivo das forças inimigas e a escassa utilização de máquinas de guerra em território nacional.
No adarve verifica-se igualmente uma melhoria nas condições de defesa e de circulação. Passam a ser aplicados os merlões góticos no lugar dos românicos (que são mais largos e menos altos) e estes começam a abrigar uma seteira, aumentando assim a capacidade de tiro das forças sitiadas. Os adarves alargam-se para facilitar a circulação dos defensores e as escadas de acesso ao topo das muralhas passam a ser adossadas ao muro (em épocas mais recuadas eram incluídas na espessura dos muros).
Fig. 13 - Segmento de muralha com merlões, seteiras, adarve e matacães
As torres de menagem deixam de ter planta de quatro faces rectas, para passarem a ser construídas em planta poligonal (aumento dos ângulos de tiro). As torres passaram a ser deslocadas para junto das muralhas (ao contrário dos românicos em que se situavam em posição central do núcleo muralhado, funcionando um pouco como um “castelo dentro do castelo”). São exemplos onde esta mudança se verifica os castelos de Guimarães, Sortelha, Almourol e Belver. As torres vão assim deslocar-se para zonas do castelo onde a defesa era mais difícil. Esta nova localização das torres traduz uma maior confiança na capacidade defensiva do castelo.



terça-feira, 14 de janeiro de 2014

A idade dos castelos – 1ª parte - A conjuntura histórica




Pode um tipo de edifício identificar por si só toda uma época? Pode. O castelo está para a idade média como as pirâmides estão para o antigo Egipto.


É um tipo de estrutura que toda a gente conota com a época medieval e cuja imponência desperta ainda hoje o imaginário das pessoas que o visitam. Serve nos dias de hoje maioritariamente como atracção turística e para recrear épocas passadas, mas continua a ter uma aura mística que o tempo não apaga.

Neste artigo iremos analisar sob o ponto de vista militar esse tipo de edifício e tentar compreender a sua verdadeira relevância num mundo e numa sociedade bastante diferentes das dos dias de hoje em que a guerra e a religião andavam de mãos dadas e em que as duas classes sociais que os representavam (nobreza e clero) sendo em muito menor número que a terceira (povo) tinham um papel dominante e decisivo na sociedade medieval europeia. Iremos no entanto, circunscrever-nos na medida do possível ao caso português.



De uma forma genérica, podemos definir a fortificação como sendo um local de segurança face a um ataque, mas também de defesa activa, um centro onde os defensores estão salvaguardados de adversários em número superior  e também uma base a partir da qual se pode impôr controlo administrativo e militar sobre uma área. A fortaleza deve controlar uma área suficientemente produtiva para albergar uma guarnição em tempos normais e ser suficientemente grande e segura para acomodar, abastecer e proteger essa mesma guarnição em caso de ataque cerrado.
As fortalezas variaram conforme as suas tipologias arquitectónicas, evolução e composição material. Partindo da matriz romana, e limitando-nos aos “limes” do antigo império, podemos concluir que ao entrar pela alta idade média uma fortaleza anglo-saxónica evoluiu para um formato diferente do de uma bizantina por exemplo, no entanto ambas tinham subjacente os mesmos objectivos defensivos e de controlo do território.

Em cima - Castelo Inglês em Kent

Em baixo - Castelo Bizantino



Fortalezas firmemente defendidas e bem abastecidas de provisões sempre foram muito difíceis de conquistar em todas as épocas antes da era da pólvora. Essas fortalezas tanto podiam existir individualmente como fazer parte de uma rede defensiva composta por várias unidades. E podiam não só ser componentes de uma defesa estratégica como instrumentos desafiadores para uma autoridade central.

Na alta idade média assiste-se a um fluxo rural por contraste ao fluxo urbano que se verificara no período imperial. As cidades deixam de ter o domínio exclusivo do poder político e este acaba por dispersar-se juntamente com a população. Portanto, para garantir a segurança do território adjacente aos novos aglomerados populacionais, sentiu-se necessidade não só de erguer muralhas, mas criar uma rede de castelos, torres defensivas e atalaias que formavam um sistema defensivo para o território.

Na península Ibérica, a monarquia visigótica, após subjugar os Suevos e os Vândalos e ter unificado a península na sua coroa, introduz uma progressiva desmilitarização da paisagem. Esse factor verificou-se determinante para a rápida conquista do território peninsular por parte das forças muçulmanas. Com poucas fortalezas dignas desse nome, os invasores islâmicos, após vencerem os visigodos na batalha de guadalete, puderam avançar pela península adentro a seu belo prazer.

O castelo é uma das mais significativas inovações que a idade média introduziu nas paisagens europeias. A forma que essas estruturas assumiram até ao advento da reconquista cristã na Península Ibérica foi a do povoado fortificado. Com o início da reconquista assiste-se ao aparecimento de uma nova estrutura arquitectónica, exclusivamente militar, concebida para albergar não um povoado, mas antes uma pequena guarnição de soldados encarregue de velar pela segurança de um território.

A origem do castelo, na acepção restrita do termo, enquanto estrutura muralhada definindo pequeno espaço onde se concentra uma guarnição de soldados, deve procurar-se nos primórdios do processo de Reconquista, encetado por Afonso I das Astúrias a partir dos meados do séc. VIII.
O caso português encontrou assim um denominador comum a todo o mundo ibérico. Todos os reinos cristãos estavam desde o século VIII em guerra contra os invasores muçulmanos.
No território luso, terá sido o século IX (reinado de Afonso III) que terá marcado o início do nosso “encastelamento”.

 Nestes tempos de belicismo feroz, era em torno dos castelos que se fixavam as populações em busca de protecção. Isso explica que grande parte dos forais medievais fossem concedidos a povoados com castelos.
Em caso de ataque por parte das forças inimigas, os castelos funcionavam como último reduto defensivo. Por este motivo começou a preocupação dos líderes militares em lhes providenciar fontes de água (através da abertura de poços ou construção de cisternas), albergues para a guarnição e alguma população, oficinas para fabrico de armas e compartimentos para armazenamento de víveres.
As inovações arquitectónicas a que as fortificações medievais estiveram sujeitas durante os séculos, reflectiam a repercussão das novas tácticas de assédio.
Ao longo de toda a idade média, o castelo serviu para muito mais que um simples reduto defensivo. Ele era o elemento regulador do sistema político, centro administrativo e militar de um território, lar do rei ou do senhor feudal. O castelo foi precisamente o expoente representativo do sistema feudal, base do mundo medieval.






domingo, 29 de dezembro de 2013

O ano da restauração





Introdução:

Permitam-me explicar o porquê da escolha do tema. Primeiro que tudo por estarmos no mês de Dezembro, o mês da restauração.  Foi no dia 1 que se deu o golpe palaciano e no dia 15 que se dá a aclamação do duque de Bragança como rei D. João IV.
 Mas a razão principal nem é nenhuma dessas… Se na primeira metade do século XVII faltavam meios, sobrava no entanto coragem, vontade e empreendedorismo, características em falta na nossa sociedade actualmente. Então como agora, o povo vivia oprimido. Então como agora o povo vivia sedento de mudanças. Mas a união, o orgulho e o patriotismo transformaram o sonho da recuperação da soberania nacional numa realidade. Difícil de alcançar, mas por isso mesmo mais saborosa.
A restauração da independência representa um dos momentos mais importantes para nós portugueses. A forma como conseguimos arranjar meios (económicos e militares) com tão poucos apoios iniciais para nos libertarmos do jugo de uma das maiores potências europeias da época ainda hoje representa um mistério difícil de explicar completamente. Qualquer bom português deve, portanto retirar deste acontecimento uma lição para a vida. E a moral da história é esta: se as coisas não estão bem, então têm de mudar, não se deixam andar à deriva esperando pelo destino.
Não se devem deixar caír no esquecimento os bons exemplos.

Facto:
Há 373 anos atrás, Portugal voltava a ser um país independente após 60 anos de domínio espanhol.

Antecedentes:
Nos primeiros anos da união peninsular, a gestão de Filipe II prometia ser uma lufada de ar fresco para um reino mergulhado numa crise profunda após o desastre de alcácer-quibir em que se perdeu o rei D. Sebastião e a nata da nobreza e dos quadros militares portugueses. Filho de mãe portuguesa, (a imperatriz Isabel de Portugal) Filipe prometeu respeitar a língua, as instituições portuguesas e prometeu não interferir  no governo do reino, o qual confiaria a uma junta governativa constituída exclusivamente por portugueses e chefiada por um vice-rei que seria sempre uma pessoa de sangue real e da sua confiança. Garantia desta forma uma ampla autonomia para o território português, tendo prestado juramento a esse respeito nas cortes de Tomar de 1581 (estatutos de Tomar).
 A pujança do império espanhol  prometia, como já referimos, fazer do seu reinado uma benesse que tiraria o país (e o império) do abismo em que se havia colocado. Contudo, cedo se percebeu que essa era apenas uma ilusão. A partir do desastre da invencível armada (1588), em que grande parte da frota portuguesa foi destruída, a Espanha entra numa grave crise financeira. Para garantir o funcionamento de uma máquina imperial imensa, distribuída por 5 continentes, e manter um aparelho militar à altura, a monarquia espanhola gastava em meados da década de 1590 cerca de 12.000.000 de cruzados anuais. Com a prata vinda das Américas a escassear,  afigurava-se um cenário de bancarrota que vem a acontecer primeiro em 1596, depois sucessivamente em 1607 e 1628. Inicia-se assim o declínio do poderio espanhol que se iria acentuar na primeira metade do século XVII.
Por consequência directa, as coisas começaram a complicar-se para Portugal que, além dos pesados impostos que se viu obrigado a pagar,  via-se também a ser atacado pelos inimigos da  Espanha – Inglaterra e Holanda – que atacavam as possessões portuguesas além mar, os portos e os navios.  É durante o período Filipino que Portugal perde Ormuz para uma coligação de Persas e Ingleses e a Bahia e Pernambuco, no Brasil para os holandeses (viria no entanto a recuperar estes territórios brasileiros em 1654).
 Entre 1618 e 1648, decorre na Europa a guerra dos 30 anos, que opôs os Habsburgos espanhóis e austríacos aos estados europeus seus inimigos (França, Holanda, Inglaterra, Suécia, Dinamarca e alguns principados alemães). Esta guerra devastou sobretudo os territórios da actual Alemanha e marcou o fim do domínio das monarquias dos habsburgos na Europa. Acentuava-se ainda mais a crise com mais “austeridade” para o povo.
As coisas em Portugal atingiram o ponto de rotura com o advento de Filipe IV (1621-40). Este nomeou para governar dom Gaspar Filipe de Guzmán, conde duque de Olivares. O estadista régio definiu em 1625 uma grande estratégia de gestão do declínio, plano que pretendia tirar o império espanhol do declínio, unificando os vários reinos da península que o constituíam. Objectivamente, o que Olivares pretendia era absorver Portugal e os outros reinos que compunham a monarquia espanhola através de uma ambiciosa política de centralização régia. Era a filosofia de uma nação, uma moeda, uma língua que pretendia implementar. O descontentamento geral do povo com os constantes aumentos de impostos, a violação ao disposto nos estatutos de Tomar e a supressão da corte do conselho de Portugal substituindo-o por uma junta menor, premiram o gatilho de um golpe de estado que vinha sendo planeado havia alguns anos em Lisboa por um grupo de fidalgos intitulados os 40 conjurados (por pertencerem a cerca de 40 linhagens nobres). Destes, há a destacar o nome de João Pinto Ribeiro, o grande impulsionador da conspiração.
Em 1637 dá-se em Évora um levantamento popular conhecido como a “revolta do Manuelinho” em que o povo se amotinou contra o aumento de impostos decretado pelo governo de Lisboa e pela elevação do imposto do real de água. Os principais incentivadores desta revolta terão sido o Procurador e o Escrivão do Povo. No entanto as ordens para o movimento apareciam assinadas pelo “Manuelinho” um pobre tolo daquela cidade alentejana. Esta revolta alastrou a vários pontos do país e já com o objectivo de depôr a monarquia filipina. Mas acabou por ser suprimida pelas forças espanholas. Ainda não tinha chegado o momento ideal.
Em 1639, por fim, chega esse momento. A Catalunha revolta-se e Olivares impõe o recrutamento de 7000 nobres portugueses para suprimir a revolta. Esta era uma oportunidade que não se podia perder. Com a maioria dos militares espanhóis deslocados para a frente catalã, os nobres portugueses decidiram que seria preferível lutar por uma guerra sua em detrimento de uma guerra dos outros.  


O 1º de Dezembro:

O ano de 1640 viu crescer em Portugal um movimento nacionalista por todas as camadas da sociedade. E o dia 1 de Dezembro de 1640 funcionou como dia de ano novo antecipado, pois significou uma mudança de vida desejada por todos os portugueses. Foi o terminar de 60 anos negros de dominação estrangeira.
Pela manhã desse dia, em Lisboa,  os nobres revoltosos invadiram o paço da ribeira, prenderam a vice-rainha (a duquesa de Mântua) forçando-a a ordenar a rendição das suas tropas e mataram aquele a que consideraram um traidor da pátria, pois era um português ao serviço dos interesses espanhóis: o secretário de estado Miguel de Vasconcelos. A única vítima mortal do golpe palaciano.
O duque de Bragança, D. João, que era o único pretendente ao trono com legítimas e reconhecidas aspirações para se tornar rei de Portugal, aceitou a proposta dos conjurados (após receber garantias de apoios internacionais) e no dia 15 de Dezembro foi aclamado rei de Portugal com o título de D. JoãoIV.  Começava assim a 4ª dinastia portuguesa e uma longa e desgastante guerra com Espanha que durou 28 anos findos os quais Portugal via reconhecida finalmente a sua independência.